Aquele calor súbito que sobe pelo peito e pescoço, some em minutos e deixa uma sensação de exaustão logo depois: é um dos sintomas mais reconhecíveis da menopausa, e também um dos mais mal compreendidos. Não é "coisa da cabeça" e não é frescura — tem mecanismo fisiológico, tem uma duração que a ciência já consegue estimar, e tem tratamento com evidência real por trás.
Este texto não substitui orientação médica. Ele resume publicações científicas e institucionais, com cada fonte citada individualmente.
Calorões e suores noturnos fazem parte do que a medicina chama de sintomas vasomotores (SVM). A causa mais aceita é uma perturbação no funcionamento normal da termorregulação do corpo, ligada à queda de estrogênio, embora a fisiologia completa ainda não seja totalmente compreendida. Cada episódio costuma durar de 2 a 30 minutos, com sensação de calor intenso, sudorese e às vezes aceleração dos batimentos cardíacos.
A prevalência varia por região do mundo: entre 22% e 63% na Ásia, 36% a 50% na América do Norte, e cerca de 74% na Europa, segundo uma revisão global sobre o tema.[3]
Um dado que surpreende muita gente: a duração mediana total dos sintomas vasomotores é de 7,4 anos — bem mais longa do que costuma se esperar. Depois da última menstruação, os sintomas ainda persistem, em mediana, por 4,5 anos.[2]
A duração varia bastante entre grupos: mulheres que começam a sentir os sintomas ainda na perimenopausa inicial tendem a ter a duração mais longa (mediana acima de 11,8 anos). Também foram observadas diferenças étnicas nos estudos internacionais — por exemplo, mulheres afro-americanas relataram duração mais longa (mediana de 10,1 anos) que outros grupos estudados. Início mais jovem, menor escolaridade, maior estresse percebido e sintomas de ansiedade ou depressão também estiveram associados a uma duração mais prolongada.[2]
A Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa (2024), elaborada em conjunto pela FEBRASGO, SOBRAC (Associação Brasileira de Climatério), Sociedade Brasileira de Cardiologia e Sociedad Interamericana de Cardiología, recomenda com alto grau de certeza a terapia de reposição hormonal para mulheres climatéricas sintomáticas sem contraindicação.[1]
Um ponto importante dessa recomendação é a chamada "janela de oportunidade": o início da terapia hormonal dentro dos primeiros 10 anos após a menopausa e/ou antes dos 60 anos é considerado seguro do ponto de vista cardiovascular e potencialmente benéfico. Começar depois dos 60 anos ou mais de 10 anos após a menopausa aumenta o risco de doença coronariana, tromboembolismo venoso e AVC.[1]
A terapia hormonal não é recomendada para mulheres com doença cardiovascular ativa, infarto ou AVC prévios. Em casos de tromboembolismo venoso prévio, a via transdérmica pode ser considerada dependendo do fator causador — sempre uma avaliação individual com sua médica ou médico.[1]
A mesma diretriz reconhece que terapias não hormonais podem ajudar no alívio dos sintomas vasomotores, para mulheres que não podem ou preferem não fazer terapia hormonal.[1] A decisão sobre qual caminho seguir depende do seu histórico de saúde pessoal e familiar, e deve ser conversada diretamente com quem te acompanha clinicamente — este texto não substitui essa avaliação individual.
[1] Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024. FEBRASGO, SOBRAC, Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedad Interamericana de Cardiología. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Disponível em: ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC11341215
[2] Duration of Menopausal Vasomotor Symptoms Over the Menopause Transition. PMC. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4433164
[3] Global cross-sectional survey of women with vasomotor symptoms associated with menopause: prevalence and quality of life burden. PMC. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8746897
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Isso não confirma que você esteja na perimenopausa, mas é um bom motivo para observar o conjunto das mudanças e conversar com um profissional. Você não precisa chegar à consulta tentando lembrar tudo de cabeça.
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